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Carl G. Jones e o falcão-de-Maurício


Foto: The Guardian


Nascido em 1954, no País de Gales, Carl G. Jones apaixonou-se pelos animais ainda na juventude, especialmente pelas aves de rapina, chegando a criar várias espécies em seu quintal. Desde esta época surgiu seu interesse pela biologia da conservação e sonhava em viajar para áreas remotas do globo conhecendo espécies ameaçadas de extinção.

Seu sonho tornou-se real quando em 1979 o ICBP (International Council for Bird Preservation) o enviou às Ilhas Maurício para encerrar o projeto de conservação do falcão de Maurício e fechar as instalações, já que ninguém mais acreditava que a espécie pudesse sobreviver.

O falcão de Maurício (Falco punctatus) foi considerada, por volta de 1970, a ave mais rara do planeta, chegando a ter apenas seis indivíduos. Muitas foram as razões que contribuíram para o declínio populacional da espécie como a redução do habitat natural, a introdução de espécies exóticas da fauna e da flora, o uso de pesticidas organoclorados (que tornava a casca dos ovos finas e quebradiças) e particularidades da própria espécie como o fato de quase não voarem em áreas abertas e de colocarem apenas três ou quatro ovos por ninhada. Porém, desistir não era uma opção para Carl Jones que, apesar da descrença dos mais famosos estudiosos, seguiu em frente e fez de tudo o que sabia para salvar o falcão ameaçado.

Carl iniciou oferecendo um suplemento alimentar para as aves na esperança de que melhor alimentadas reproduzissem mais, e isso incluía escalar um enorme penhasco para levar carne crua até o ninho diariamente. Dos primeiros três ovos obtidos nasceram três machos, mas mesmo assim Carl não se deu por vencido. Pensou então que, como os ovos eram colocados em dias consecutivos, se retirasse um ovo por dia poderia induzir a fêmea a continuar fazendo a postura. Desta forma chegou a conseguir oito ovos. Depois de algum tempo, havia vários ovos no laboratório (todos eram recolhidos para que não fossem predados), mas faltavam fêmeas adultas para incubá-los. A alternativa foi usar fêmeas do falcão europeu, espécie não ameaçada, para fazer o serviço.

O desafio agora era outro, fazê-los reproduzir em cativeiro, o que se negavam. Jones desenvolveu uma técnica de fecundação artificial para ajudá-los, mas ainda era preciso considerar que os falcões nascidos em cativeiro eram todos parentes muito próximos, o que começava a gerar problemas genéticos. Para solucionar o problema foi preciso realizar uma seleção artificial, retirando todos os indivíduos que apresentavam alterações do plantel de reprodutores. Fêmeas inexperientes se tornavam outro obstáculo, pois ainda não sabiam incubar corretamente os ovos causando perdas. Desta forma, Carl achou mais viável que elas “treinassem” com ovos do falcão europeu e não com seus próprios, que eram tão valiosos. Assim, numa cena bastante rara, fêmeas do falcão europeu incubavam ovos de falcão de Maurício enquanto fêmeas de falcão de Maurício incubavam ovos do falcão europeu.

Restava agora a última etapa, reintroduzir o falcão de Maurício na natureza já que havia uma quantidade viável de indivíduos. Carl os monitorou e ofereceu suplemento alimentar por mais algum tempo. Após a comunidade científica reconhecer que um único homem havia sido capaz de fazer o que ninguém considerava possível, muitos foram os incentivos recebidos para a continuação do projeto de conservação da ave, que hoje conta com mais de 750 indivíduos.

A história de Carl Jones é mais do que um incentivo para lutarmos contra a extinção por pior que pareça a situação, é a prova concreta de que só desiste quem quer, pois quem tem fé e persistência, faz acontecer.

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